Em um cenário em que marcas deixam de ser apenas narrativas e passam a operar como sistemas vivos, conectando dados, tecnologia e experiência, o papel da liderança em marketing ganha uma nova camada de complexidade.
A Beontag representa bem essa transformação. A companhia atua globalmente na conexão entre o mundo físico e o digital, por meio de uma ampla gama de materiais gráficos, etiquetas inteligentes e tecnologias como RFID e IoT, que permitem identificar, rastrear e gerar inteligência sobre produtos ao longo de toda a cadeia, do supply chain à experiência do consumidor. Seu modelo combina manufatura com plataformas e aplicações digitais, atendendo indústrias como varejo, moda, logística e bens de consumo.
É nesse contexto que Alice Junqueira Salvadori lidera a estratégia global de marca e comunicação, com o desafio de traduzir uma proposta de valor altamente técnica em narrativas claras, relevantes e consistentes em diferentes mercados. Sua atuação conecta branding, PR, campanhas integradas, ecossistema digital, CRM e estratégias de go-to-market, sempre com um olhar orientado a dados e crescimento.
“O branding constrói o campo fértil: cria confiança, autoridade e reconhecimento. A geração de demanda colhe nesse campo, com mensagens que convertem. Meu papel é garantir que essas camadas conversem, que as métricas sejam vistas de forma integrada e que, no fim do dia, a marca não fique restrita ao discurso, mas influencie de fato pipeline, conversão e receita.“
Com uma trajetória construída entre B2C e B2B, Alice combina visão estratégica de marca com execução orientada a dados, lidando com desafios como consistência global, personalização em escala e alinhamento entre áreas de negócio.
Nesta conversa, exploramos decisões reais, aprendizados e as tensões que definem a liderança quando o desafio deixa de ser apenas comunicar e passa a ser gerar impacto real no negócio.
5 Perguntas de Negócios
1) A Beontag viabiliza o futuro ao fornecer soluções completas e inovadoras para oferecer identificação e transformação digital a empresas em todo o mundo, conectando o mundo físico ao digital e transformando produtos em pontos de dados ao longo de toda a jornada. Como esse posicionamento redefine a forma como você constrói narrativa de marca, especialmente em um contexto em que o valor não está apenas no produto, mas na inteligência que ele gera?
Alice Junqueira Salvadori:
Esse posicionamento redefine a construção de narrativa de marca porque nos obriga a ir além dos tradicionais selling points de produto. E esse é um desafio central na Beontag.
Nosso portfólio é extenso e atende múltiplas verticais de aplicação e segmentos de mercado. Vamos desde produtos mais “commoditizados”, que, por sua natureza, são desafiadores em termos de agregação de valor, até tecnologias verdadeiramente transformadoras, como RFID e IoT, que têm um potencial gigantesco de entrega, mas que são de difícil compreensão para um público não técnico.
É exatamente nesse ponto que a construção de narrativa se torna estratégica, pois seu papel é traduzir essa complexidade em valor de marca e posicionamento claro de produto. Isso significa que não podemos ter uma narrativa estática. Trabalhamos com um desdobramento de mensagens que se adaptam conforme a fase do funil da jornada do usuário, desde a conscientização, onde precisamos educar o mercado sobre o que é possível com inteligência aplicada a produtos, até a decisão de compra, onde a conversão exige clareza de ROI e aplicabilidade prática.
Além disso, conversamos com públicos muito diversos. Temos desde interlocutores altamente técnicos, que querem saber sobre frequências, protocolos e especificações de materiais, até executivos generalistas, que precisam entender o impacto estratégico para o negócio, a cadeia de valor e a experiência do consumidor final. Adaptar a linguagem sem perder a consistência da mensagem central é um dos grandes desafios da nossa atuação, que conecta branding, PR, campanhas integradas, CRM, todo o ecossistema digital e estratégias de go-to-market.
Mais do que contar uma história, a construção de narrativa na Beontag é um exercício constante de tradução: transformar a sofisticação técnica de um portfólio amplo em entregas de valor claras, que endereçam dores reais do mercado, em diferentes momentos da jornada e que dialoguem com diferentes personas.
Nesse contexto, a credibilidade se torna nosso ativo mais importante. Nossa abordagem combina branding com dados: trabalhamos com cases reais, métricas de performance e exemplos concretos de como nossas soluções geram eficiência operacional, rastreabilidade e novas possibilidades de engajamento com o consumidor final. A narrativa se torna, então, uma ponte entre o que é tecnicamente possível e o que é estrategicamente relevante para cada indústria que atendemos.
E tudo isso precisa acontecer em escala global. Atuamos em diferentes mercados, o que exige que nossa narrativa central seja forte o suficiente para viajar entre culturas, mas flexível para se adaptar às dores específicas de cada região.
2) Você transita entre branding, PR, CRM, canais digitais e geração de demanda, frentes que muitas vezes operam com métricas e horizontes diferentes. Como você conecta essas camadas na prática para garantir que a marca não fique restrita ao discurso e, de fato, influencie pipeline, conversão e receita?
Alice Junqueira Salvadori:
A chave é conectar essas camadas para que a marca não se torne um discurso descolado do negócio e, ao mesmo tempo, a geração de demanda não se transforme em um exercício puramente tático, sem sustentação de longo prazo.
Toda a nossa comunicação parte de um posicionamento claro de marca. Esse eixo estratégico é o mesmo para todas as nossas verticais de atuação em marketing e geração de demanda. O que muda é o recorte, objetivo e desdobramento em cada etapa do funil.
O desafio do meu time é justamente garantir que todos os canais de comunicação não sejam paralelos, mas integrados e complementares em suas estratégias e entregas. Um case publicado via PR alimenta uma campanha de nurturing. Um posicionamento construído para um lançamento de produto vira tema para um webinar com foco em geração de demanda. A consistência da narrativa e o cross da multicanalidade com a jornada de funil é o que permite que um prospect que chega por uma ação de conversão já tenha alguma familiaridade com a marca vinda de um esforço de awareness anterior. O universo de construção de marca, posicionamento, relacionamento e geração de demanda é um curso cíclico que se retroalimenta.
Uma das maiores armadilhas é tratar as métricas dessas frentes de forma isolada. As métricas devem estar conectadas por um olhar de jornada, não de silos. A abordagem do olhar de dados aplicado à prática do branding e da comunicação acontece quando consigo rastrear como um esforço de topo impacta a velocidade de conversão no fundo do funil. Por exemplo: leads que foram expostos a campanhas de branding ou que consomem conteúdo de PR tendem a ter ciclos de venda mais curtos e taxas de conversão mais altas. Esse é o tipo de dado fundamental para justificar o investimento em marca e para a alocação de recursos entre as frentes.
Na prática, essa integração só acontece se houver alinhamento constante entre marketing e as áreas de negócio, como vendas, P&D, industrial e times regionais para garantir que as narrativas que construímos no nível de marca sejam aderentes nas campanhas de produto e no discurso comercial.
Minha visão é que branding e geração de demanda não são forças opostas, mas sim complementares quando bem orquestradas. O branding constrói o campo fértil: cria confiança, autoridade e reconhecimento. A geração de demanda colhe nesse campo, com mensagens que convertem. Meu papel é garantir que essas camadas conversem, que as métricas sejam vistas de forma integrada e que, no fim do dia, a marca não fique restrita ao discurso, mas influencie de fato pipeline, conversão e receita.
3) Grande parte das discussões sobre IA ainda está concentrada em marketing e conteúdo. No contexto da Beontag, onde você já enxerga a IA impactando diretamente o core do negócio, seja em produto, supply chain ou experiência?
Alice Junqueira Salvadori:
Entendo que, não só na Beontag, mas na maioria das grandes empresas, vivemos um momento exploratório consciente, com aplicações práticas já acontecendo em otimização de processos e automação de fluxos. Não são projetos glamourosos, mas geram eficiência real para a companhia.
A meu ver, o ponto mais estratégico e onde vejo o maior potencial de longo prazo para as empresas é a aplicação dessa inteligência ao grande volume de dados gerado por elas, usando a IA para gerar insights preditivos sobre inventário, comportamento de consumo e eficiência de supply chain, por exemplo.
4) Com o crescimento exponencial de dados gerados por tecnologias como RFID, a interpretação manual se torna inviável. Qual é o papel da IA em transformar esse volume de dados em decisões automatizadas e inteligência escalável para o negócio?
Alice Junqueira Salvadori:
O avanço da adoção da IA pelas empresas está diretamente ligado ao nosso modelo de negócio e, inclusive, à nossa proposta de valor. Para a Beontag, nossos materiais gráficos e etiquetas inteligentes, combinados com RFID e IoT, criam a camada de dados que torna a IA possível no mundo físico.
A IA, por mais sofisticada que seja, depende de um insumo essencial: dados precisos, em tempo real e no nível do item. É aí que a Beontag atua. Nossas soluções de RFID fornecem a identidade digital de cada produto, criando o fluxo de dados confiável que os sistemas de IA precisam para funcionar. Com ela, o que antes era um volume incontrolável de dados se transforma em inteligência escalável e acionável.
O papel da IA, então, é duplo: ela automatiza decisões em escala e gera inteligência preditiva para o negócio. Quando falamos de crescimento exponencial de dados, a interpretação manual realmente se torna inviável. A IA entra como a camada que automatiza decisões em tempo real. Por exemplo: com nossas etiquetas inteligentes, um varejista consegue rastrear produtos da manufatura ao ponto de venda. A IA transforma esses dados em insights preditivos: onde haverá gargalo? Como ajustar a reposição? Qual a melhor estratégia para a próxima coleção? Essas decisões, antes baseadas em amostragem e intuição, passam a ser orientadas por dados em escala.
Mais do que automatizar, a IA permite migrar de uma lógica descritiva (o que aconteceu) para uma lógica prescritiva (o que fazer a partir disso). Isso impacta diretamente o negócio dos nossos clientes: redução de rupturas, otimização de estoque, eficiência logística e experiências hiperpersonalizadas. Em setores como varejo, moda, logística e bens de consumo, esse salto representa não apenas ganho operacional, mas uma nova forma de operar o negócio.
5) Existe um risco claro de transformar o mundo físico em um grande gerador de dados sem necessariamente gerar valor. Como a Beontag apoia seus clientes na transformação desses dados em decisões operacionais e estratégicas que geram impacto real no negócio?
Alice Junqueira Salvadori:
Na Beontag, temos clareza de que nossa proposta de valor vai além de fornecer a infraestrutura de captura, é garantir que esses dados se transformem em decisões operacionais e estratégicas que gerem impacto real para o negócio dos nossos clientes. Nossos projetos de implementação de tecnologia RFID e IoT em grandes empresas não partem da premissa de “preciso identificar e rastrear tantos milhares de SKUs”, mas sim questionamentos que vão no core da dor do cliente: como posso evitar minha ruptura de estoque? Como simplificar gargalos logísticos?
Tudo começa pela qualidade do dado. Nossas soluções de RFID fornecem a identidade digital de cada produto, garantindo dados precisos, em tempo real e no nível do item. Sem essa base confiável, qualquer tentativa de análise ou automação seria frágil. A entrega de valor para os clientes, no final, é a tradução desses insights em decisões que geram impacto real. No nível operacional, isso significa reposição automática de estoque, alocação dinâmica de produtos e otimização logística. No nível estratégico, planejamento de coleções baseado em giro real, precificação orientada por demanda e experiências personalizadas que aumentam fidelização e ticket médio. Nosso modelo de negócio combina manufatura de materiais inteligentes com plataformas e aplicações digitais exatamente para que não sejamos apenas um fornecedor de hardware, mas um parceiro na jornada de transformação digital dos nossos clientes.
1 Pergunta fora da Curva
Muitas das decisões mais importantes que tomamos como líderes não vêm da carreira. O que, fora do trabalho, mais moldou a profissional que você é hoje?
Alice Junqueira Salvadori:
Acredito que todas as nossas experiências de vida, das maiores às menores, acabam impactando e moldando nossa vida profissional. Não consigo apontar um evento ou fator marcante isolado, eu diria que são mais um conjunto de traços que me acompanham desde antes da vida corporativa.
Um deles é a curiosidade. Sempre fui uma pessoa muito curiosa, daquelas que gosta de aprender sobre diversas áreas e assuntos. Esse instinto de questionar e querer entender de fato o porquê das coisas, é algo que levo comigo até hoje e que influencia diretamente minha atuação profissional, especialmente no planejamento estratégico, onde não me contento com respostas superficiais e gosto de ir até a raiz dos problemas para construir soluções mais consistentes.
Outro traço que carrego é o ceticismo. Eu era daquelas crianças que nunca acreditou em Papai Noel ou Coelho da Páscoa, não por falta de imaginação, mas por uma necessidade natural de questionar, testar e buscar evidências. Talvez isso tenha guiado minha afinidade por dados concretos mesmo em discussões mais conceituais. Na minha atuação, esse equilíbrio é essencial: consigo navegar por narrativas e conceitos sem nunca perder de vista a importância de métricas, resultados e evidências que sustentem as decisões.
No fim, acho que esses dois traços se complementam. A curiosidade me faz explorar possibilidades criativas, perguntar “e se?”; o ceticismo me traz de volta ao “o que os dados dizem?”. É nessa contraposição saudável que me sinto confortável para liderar, planejar e tomar decisões mais equilibradas.
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