Identity Graph: como combinar identidade determinística e probabilística para viabilizar o marketing omnichannel

Data da publicação:

Identity Graph como combinar identidade determinística e probabilística

* Autor: Gui Zaniol, Senior Solutions Consultant na Resulticks

Quando falamos de marketing omnichannel, tudo começa com uma pergunta aparentemente simples: como saber que a pessoa que visitou um site, abriu um e-mail, utilizou um aplicativo e aparece no CRM é, de fato, o mesmo indivíduo ao longo da jornada? Essa pergunta parece trivial, mas na prática representa uma das camadas mais complexas de toda a arquitetura de MarTech, especialmente em ambientes digitais onde as interações acontecem de forma fragmentada e distribuída entre diferentes dispositivos e canais.

Usuários utilizam múltiplos navegadores, alternam entre celular e computador, compartilham dispositivos com outras pessoas, limpam cookies e transitam entre ambientes autenticados e anônimos. Cada uma dessas ações cria fragmentos de identidade que, isoladamente, não representam necessariamente um cliente completo. Sem um modelo consistente de identificação, o que as empresas possuem não é uma estratégia omnichannel, mas sim um conjunto de canais que operam de forma relativamente independente, cada um com sua própria visão parcial do usuário.

É nesse contexto que surge o conceito de Identity Graph, uma estrutura projetada para conectar diferentes identificadores digitais e construir uma visão progressivamente mais consistente do cliente ao longo do tempo. Esse modelo de resolução de identidade normalmente combina duas abordagens principais:

  • Identidade determinística;
  • Identidade probabilística.

Compreender o papel de cada uma dessas abordagens e, principalmente, entender por que elas precisam funcionar em conjunto é fundamental para empresas que desejam evoluir em personalização, mensuração de resultados e construção de experiências realmente conectadas entre canais.

O que é um Identity Graph

Um Identity Graph pode ser entendido como um grande mapa de relações entre identificadores digitais associados a um mesmo indivíduo. Em vez de depender de um único registro fixo de cliente, como tradicionalmente ocorre em sistemas de CRM, esse modelo trabalha com múltiplos identificadores que podem representar a mesma pessoa em diferentes contextos de interação.

Entre os identificadores mais comuns utilizados nesse processo estão:

  • E-mails;
  • Números de telefone;
  • Cookies de navegação;
  • IDs de dispositivos;
  • IDs de aplicativos;
  • Contas autenticadas.

Esses identificadores passam a ser conectados por sinais que indicam que pertencem, ou provavelmente pertencem, à mesma pessoa. Cada nova interação digital adiciona um novo ponto de informação que pode reforçar, ajustar ou até mesmo redefinir relações previamente estabelecidas dentro desse grafo.

Visitas ao site, interações com conteúdo, aberturas de e-mail, uso do aplicativo, logins ou transações de compra são exemplos de eventos que alimentam continuamente esse modelo. À medida que esses eventos se acumulam, o sistema consegue enriquecer o contexto de cada perfil e fortalecer as conexões entre diferentes identificadores.

Por esse motivo, identidade digital não deve ser vista como um atributo fixo armazenado em uma tabela. Ela se comporta muito mais como um sistema dinâmico que evolui continuamente conforme novas interações são registradas e processadas.

Identidade determinística: quando existe certeza

A resolução de identidade determinística é considerada a forma mais direta e confiável de identificar um usuário. Esse modelo depende da presença de identificadores considerados fortes, que permitem afirmar com alto grau de certeza que duas interações pertencem ao mesmo indivíduo.

Entre os exemplos mais comuns de identificadores determinísticos estão:

  • Login em site ou aplicativo;
  • Envio de formulário com e-mail;
  • Número de telefone validado;
  • ID de cliente autenticado.

Quando dois eventos compartilham um identificador desse tipo, a associação é considerada inequívoca. Nesse cenário, não existe inferência ou probabilidade envolvida: o sistema simplesmente reconhece que se trata do mesmo usuário.

Essa abordagem é extremamente precisa e forma a base da identidade em muitos sistemas de CRM e CDP. No entanto, ela possui uma limitação estrutural importante. Grande parte da jornada do cliente acontece antes da autenticação ou fora de ambientes logados, especialmente nas fases iniciais de descoberta e consideração.

Atividades como navegação em páginas de conteúdo, interações com anúncios, pesquisas internas no site ou visitas realizadas em dispositivos diferentes frequentemente ocorrem em contextos anônimos. Se uma organização depender exclusivamente de dados determinísticos, ela passa a enxergar apenas a parte final da jornada do cliente, normalmente mais próxima do momento de conversão.

Identidade probabilística: quando juntamos múltiplos sinais

Para reduzir essas lacunas, entra em cena a resolução de identidade probabilística. Diferentemente da abordagem determinística, esse modelo utiliza múltiplos sinais comportamentais e contextuais para estimar a probabilidade de que dois identificadores pertençam à mesma pessoa.

Esses sinais podem incluir fatores como padrões de navegação, características do dispositivo utilizado, localização aproximada, horários recorrentes de uso e similaridade entre sessões digitais. Nenhum desses elementos, isoladamente, é suficiente para comprovar identidade, mas quando analisados em conjunto por modelos estatísticos ou algoritmos de machine learning, eles permitem inferir relações entre diferentes identificadores.

Essa abordagem amplia significativamente a capacidade de compreender o comportamento do usuário, especialmente em estágios iniciais da jornada. Ela permite manter algum nível de continuidade entre sessões anônimas, enriquecer perfis que ainda não passaram por autenticação e antecipar estratégias de personalização baseadas em comportamento observado.

Naturalmente, a resolução probabilística envolve um grau inerente de incerteza. Dois tipos principais de erro podem ocorrer nesse processo:

  • Falsos positivos, quando perfis distintos são conectados indevidamente;
  • Falsos negativos, quando conexões reais deixam de ser identificadas.

Mesmo assim, quando os modelos são bem calibrados e alimentados por dados de qualidade, os níveis de precisão podem superar 80% e, em alguns contextos, alcançar patamares próximos de 90% ou mais. Na prática, esse nível de acurácia costuma gerar experiências muito superiores àquelas em que todos os usuários permanecem anônimos até o momento do login.

Por que combinar identidade determinística e probabilística

Um erro comum ao discutir resolução de identidade é tratar as abordagens determinística e probabilística como alternativas concorrentes. Na realidade, a arquitetura moderna de Identity Graph foi concebida justamente para integrar as duas estratégias de forma complementar.

Em um cenário típico de interação digital, a jornada começa de forma anônima. O sistema utiliza sinais probabilísticos para estabelecer conexões iniciais entre sessões e dispositivos, preservando algum nível de continuidade no comportamento observado. Em determinado momento, o usuário se identifica por meio de um login, um cadastro ou o envio de um formulário. A partir desse ponto, passa a existir um identificador forte que permite confirmar a identidade de forma determinística.

Quando isso acontece, o sistema pode reconciliar os eventos históricos que haviam sido associados probabilisticamente ao usuário e consolidá-los dentro do perfil autenticado. Dessa forma, a identidade determinística não substitui o modelo probabilístico, mas sim valida e organiza as conexões que haviam sido construídas anteriormente.

Essa integração evita que a jornada do cliente seja reiniciada a cada nova autenticação ou troca de dispositivo e permite preservar o contexto completo das interações ao longo do tempo.

Quer mais conteúdos práticos para seu dia a dia na gestão de MarTech? Acompanhe o Tudo Sobre CDP no Linkedin. 

O mito do Single Customer View perfeito

O conceito de Single Customer View (SCV) é frequentemente apresentado como a promessa de uma visão perfeita e definitiva de cada cliente. No entanto, quando analisamos o funcionamento do mundo real, essa expectativa precisa ser interpretada com mais nuance.

Pessoas compartilham dispositivos, utilizam múltiplos e-mails, alternam entre contextos pessoais e profissionais e acessam serviços a partir de diferentes redes e ambientes digitais. Mesmo os sistemas mais sofisticados não conseguem determinar com absoluta certeza quem está utilizando um dispositivo específico em determinado momento.

Por essa razão, é mais adequado compreender o Single Customer View como uma representação dinâmica da identidade do cliente, construída a partir dos dados disponíveis em cada momento. À medida que novas interações acontecem e novos identificadores são associados ao perfil, essa visão evolui e se torna progressivamente mais precisa.

Nesse contexto, o objetivo de um Identity Graph não é alcançar uma representação perfeita e definitiva da identidade de um indivíduo, algo que seria praticamente impossível em ambientes digitais complexos. O verdadeiro objetivo é representar da forma mais consistente possível quem é aquele usuário com base no conjunto de sinais disponíveis naquele momento.

Omnichannel começa na identidade, não nos canais

Antes de falar sobre jornadas personalizadas, automação de marketing, inteligência artificial aplicada à experiência do cliente ou estratégias avançadas de engajamento, existe uma questão mais fundamental que precisa ser resolvida: quem é esse cliente ao longo do tempo e dos diferentes canais de interação?

Sem uma resposta consistente para essa pergunta, qualquer estratégia omnichannel se torna limitada, pois cada sistema continuará operando com visões fragmentadas do usuário.

A combinação entre identidade determinística e probabilística, organizada por meio de um Identity Graph dinâmico, cria a infraestrutura necessária para conectar essas interações e construir uma visão mais completa da jornada do cliente. É essa base que permite transformar dados dispersos em contexto, contexto em entendimento e entendimento em experiências realmente conectadas.

Quando essa camada de identidade funciona corretamente, o omnichannel deixa de ser apenas um conceito aspiracional e passa a se tornar uma capacidade operacional real dentro da arquitetura de marketing e dados da empresa.

* Autor: Gui Zaniol, Senior Solutions Consultant na Resulticks

Leia também:

Veja também

Mais lidas

COMPARTILHE