A série “5 & 1 – Negócios sem Roteiro” traz conversas objetivas com líderes que estão diretamente envolvidos nas decisões estratégicas que sustentam a evolução dos negócios. Em cinco perguntas diretas, exploramos visão, desafios e aprendizados práticos. Na sexta, saímos do script para revelar o lado humano por trás da liderança.
A carreira de Eduardo Oliveira foi moldada onde tecnologia encontra pressão real de negócio. Em ambientes corporativos complexos, nos quais escala, estabilidade e velocidade não são diferenciais, mas exigências básicas, ele liderou iniciativas de TI com impacto direto na operação.
Ao longo dessa trajetória, testemunhou uma mudança estrutural: a tecnologia deixou de ocupar o papel de retaguarda para assumir o centro da estratégia. Não mais como suporte, mas como motor de crescimento, eficiência e transformação da experiência do cliente.
Atualmente como Senior IT Manager da ASICS Latin America, Eduardo atua em um contexto que combina desafios globais e particularidades regionais, conectando diretrizes corporativas a demandas locais de negócio. Seu papel envolve a gestão de plataformas, integração de sistemas, governança de dados e suporte à transformação digital em uma operação que atende múltiplos países, canais e perfis de consumidores.
Ao longo da carreira, acumulou experiências tanto na sustentação de ambientes estáveis quanto na implementação de soluções voltadas à inovação, sempre com foco em escalabilidade, segurança e geração de valor para o negócio. Essa vivência o posiciona como um líder que traduz complexidade técnica em decisões práticas, alinhadas à estratégia da companhia e às expectativas do consumidor final.
Nesta edição do 5 & 1 – Negócios sem Roteiro, Eduardo compartilha sua visão sobre liderança em tecnologia, transformação digital em organizações globais, evolução profissional e os aprendizados de atuar em um ambiente onde cada decisão tecnológica impacta diretamente performance, operação e experiência de marca.
5 Perguntas de Negócios
1) ASICS é um acrônimo de “Anima Sana In Corpore Sano”, uma frase cunhada pelo antigo satirista romano, Juvenal. Este ditado, que significa “uma mente sã em um corpo são”, é a filosofia que norteia a empresa: promover o bem-estar físico e mental na sociedade. Na sua visão, como a tecnologia pode deixar de ser apenas um pilar operacional e passar a atuar como um amplificador desse propósito dentro do negócio?
“Deixamos de atuar apenas na venda de produtos e passamos a cultivar hábitos, cultura e pertencimento durante toda a jornada do atleta.”
Eduardo:
A tecnologia amplia o alcance do propósito da ASICS ao:
- Criar comunidades digitais de apoio e incentivo ao movimento;
- Democratizar o acesso a pesquisas sobre movimento e saúde mental;
- Conectar consumidores e atletas a experiências sociais e esportivas promovidas pela marca.
Com isso, deixamos de atuar apenas na venda de produtos e passamos a cultivar hábitos, cultura e pertencimento durante toda a jornada do atleta.
2) Marcas globais como a ASICS operam com múltiplos canais, dados de consumo, comportamento e relacionamento. Onde você enxerga oportunidades reais de uso estratégico desses dados para geração de valor ao negócio, sem comprometer a experiência do consumidor?
“65% dos donos de cães dizem que seu pet é seu principal motivador de movimento, destacando como fatores emocionais e comportamentais influenciam o bem-estar humano.”
Eduardo:
Marcas globais como a ASICS operam em um ecossistema cada vez mais rico em dados, desde comportamento de compra até jornada de treino, preferências, engajamento e uso dos nossos serviços digitais. Mas o ponto central não é ter muitos dados, e sim usar os dados certos para promover valor real, sempre respeitando privacidade e experiência.
As nossas pesquisas globais recentes reforçam exatamente essa abordagem. A campanha global Mind’s Best Friend, por exemplo, revelou que 65% dos donos de cães dizem que seu pet é seu principal motivador de movimento, destacando como fatores emocionais e comportamentais influenciam o bem-estar humano.
Da mesma forma, iniciativas globais como Move Your Mind reforçam, ano após ano, o impacto positivo do movimento na saúde mental e inspiram toda a comunicação global “Sound Mind, Sound Body”.
Dados para ampliar propósito:
Movimento melhora o bem-estar mental, algo reforçado tanto em Move Your Mind quanto em Mind’s Best Friend.
Ao integrar esses aprendizados a dados de uso do ecossistema (OneASICS, e-commerce, app, Runkeeper), conseguimos:
- Criar jornadas que incentivam pequenas ações de movimento no dia a dia;
- Construir experiências omnichannel que reduzem atrito e reforçam hábitos saudáveis;
- Transformar dados em serviços de bem-estar, não apenas em métricas de negócio.
Aqui, a tecnologia vira um amplificador da saúde física e mental, não apenas um canal de vendas.
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3) Quando falamos em varejo conectado e AI-first, o risco é focar apenas em performance e conversão. Como você enxerga a tecnologia ajudando a ASICS a mensurar sucesso não só em vendas, mas também em impacto positivo na experiência, fidelização e bem-estar dos clientes?
“Quando a gente fala de varejo conectado e AI-first, o ponto não é usar tecnologia só para vender mais, é usar tecnologia para cuidar melhor das pessoas.”
Eduardo:
Para mim, quando a gente fala de varejo conectado e AI-first, o ponto não é usar tecnologia só para vender mais, é usar tecnologia para cuidar melhor das pessoas. Na ASICS, sucesso não pode ser medido apenas em conversão. Precisa refletir se estamos realmente tornando a vida do consumidor mais simples, mais fluida e, no fim do dia, mais leve.
A IA nos ajuda a enxergar sinais que antes passavam batido: redução de atrito, tempo que a pessoa leva para resolver algo, como ela navega, se ela volta porque gosta da experiência e não só pela oferta. Também conseguimos medir impacto de comunidade, participação em eventos, recorrência no ecossistema OneASICS, conexão com nosso propósito Sound Mind, Sound Body. Isso tudo diz muito mais sobre lealdade do que um carrinho fechado.
No fundo, tecnologia quando usada do jeito certo, nos permite algo muito simples e muito humano: entender as pessoas de verdade.
E, a partir disso, entregar experiências que inspiram movimento, constroem confiança e fazem com que o cliente queira ficar, não porque teve um desconto, mas porque se sentiu bem. Isso, para mim, é o melhor indicador de sucesso que a gente pode ter.
4) Você já viveu a transformação digital tanto no pequeno varejo quanto em uma operação global. O que essa vivência te ensinou sobre como decisões aparentemente “técnicas”, como estoque, logística ou automação, impactam diretamente a motivação, a confiança e o bem-estar do cliente?
“Quando você erra no estoque, você não perde só venda, você ensina o cliente a não voltar.
Quando você atrasa na entrega, você não quebra só SLA, você quebra expectativa.
Quando você automatiza mal, você não ganha escala, você perde humanidade.“
Eduardo:
Uma das maiores ilusões do varejo é achar que estoque, logística e automação são temas técnicos. Eles não são. Eles são decisões sobre confiança.
Quando você erra no estoque, você não perde só venda, você ensina o cliente a não voltar.
Quando você atrasa na entrega, você não quebra só SLA, você quebra expectativa.
Quando você automatiza mal, você não ganha escala, você perde humanidade.
No pequeno varejo, isso dói na hora: o cliente olha na sua cara e reclama.
Na operação global, dói em silêncio, milhões vão embora sem avisar.
O que aprendi é que a experiência do cliente não nasce no front. Ela nasce no backoffice. Nas planilhas, nos sistemas, nos fluxos que quase ninguém vê.
Transformação digital não é colocar tecnologia em cima de processo ruim. É ter coragem de redesenhar o processo pensando primeiro no cliente, e só depois na eficiência.
Porque no final, cliente não mede a gente por ERP, WMS ou IA. Ele mede por uma pergunta simples: ‘Essa marca facilita ou complica a minha vida?
5) Em operações que envolvem cadeia de suprimentos, canais digitais, lojas físicas e parceiros, antecipar riscos é fundamental. Como o uso de dados e modelos analíticos pode ajudar a prever problemas e apoiar decisões mais inteligentes no dia a dia do negócio?
“O verdadeiro valor está quando analytics vira parte da rotina da liderança, não como relatório mensal, mas como instrumento diário de decisão.“
Eduardo:
Durante muito tempo, dados foram usados para explicar o passado. Hoje, eles precisam servir para proteger o futuro.
Em operações complexas, o problema nunca é a falta de informação. É o excesso sem inteligência. Todo mundo tem dashboard, KPI, relatório. Pouca gente tem alerta.
Quando você usa modelos analíticos do jeito certo, eles deixam de ser ‘BI bonito’ e viram radar. Eles mostram onde o estoque vai quebrar antes de quebrar. Onde a logística vai falhar antes de atrasar. Onde a conversão vai cair antes do cliente reclamar.
Mais do que prever números, eles antecipam comportamentos.
Mas tem um ponto crítico: dado sem governança vira ruído. Modelo sem contexto vira ilusão. E algoritmo sem responsabilidade vira risco.
O verdadeiro valor está quando analytics vira parte da rotina da liderança, não como relatório mensal, mas como instrumento diário de decisão.
No fim, dados não substituem gestores. Eles elevam o nível das decisões.
Eles tiram a empresa do modo ‘apagar incêndio’ e colocam no modo ‘detector de fumaça’.
No varejo, quem só apaga incêndio, mais cedo ou mais tarde, vira parte do problema.
1 Pergunta Fora da Curva
Você costuma dizer que seu foco hoje é simplificar o complexo. O que mais mudou em você, como líder, ao longo dessa jornada intensa entre varejo, tecnologia e transformação digital, especialmente na forma de lidar com pressão, ritmo acelerado e equilíbrio pessoal, algo que raramente aparece no currículo?
“Não dá mais para pensar em projetos de dois anos. O mercado não espera. A gente precisa ser ágil, entregar pequenos resultados todos os dias, testar, ajustar, aprender rápido, sem abrir mão de governança, compliance e responsabilidade.”
Eduardo:
Eu costumo dizer que sou um profissional de varejo dentro da TI. E isso moldou completamente a minha forma de liderar.
No começo da carreira, como muitos profissionais de tecnologia, eu olhava primeiro para o técnico: sistema, arquitetura, ferramenta, metodologia. Com o tempo, eu entendi que isso é meio, não é fim. No fundo, a gente está ali para resolver problema de negócio, gerar receita, reduzir custo e tornar a empresa mais eficiente.
Hoje, eu não me apaixono mais por projetos. Eu me apaixono por impacto.
Outra grande mudança foi entender o ritmo. Antes, eu achava normal trabalhar sempre no limite, viver apagando incêndio e chamar isso de alta performance. Hoje, eu sei que isso não escala, nem para a empresa, nem para as pessoas, nem para mim.
Não dá mais para pensar em projetos de dois anos. O mercado não espera. A gente precisa ser ágil, entregar pequenos resultados todos os dias, testar, ajustar, aprender rápido, sem abrir mão de governança, compliance e responsabilidade.
O equilíbrio pessoal entrou exatamente aí. Eu aprendi que simplificar o complexo não é só sobre processos e sistemas. É sobre agenda, prioridades e energia. É escolher bem onde colocar esforço, onde aprofundar e onde dizer ‘não’.
O que mais mudou em mim foi isso: eu deixei de ser o líder que tenta resolver tudo e virei o líder que cria clareza para que o time resolva melhor.
No fim, maturidade profissional não é saber mais tecnologia. É saber transformar pressão em foco, velocidade em consistência e ambição em sustentabilidade.
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