Mais de 10 mil pessoas passaram pelo Distrito Anhembi em dois dias de debates sobre agentes, produtividade, ROI, ciência, negócios, mobilidade e futuro do trabalho. Para o Tudo Sobre CDP, a principal mensagem foi do AI Brasil Experience 2026 é clara: a discussão sobre IA saiu da experimentação e entrou na operação.
A inteligência artificial já não precisa provar que consegue gerar textos, imagens, códigos ou apresentações. A pergunta que começa a dominar a agenda das empresas é muito mais difícil: como transformar toda essa capacidade em resultado real?
Esse foi um dos sinais mais claros do AI Brasil Experience 2026, realizado nos dias 28 e 29 de outubro, no Distrito Anhembi, em São Paulo.
Para o Tudo Sobre CDP, a edição mostrou uma mudança importante no estágio da conversa sobre inteligência artificial.
A tecnologia continua ocupando o centro das discussões, mas o debate começa a migrar do encantamento para questões muito mais próximas da realidade corporativa: ROI, governança, agentes, dados, infraestrutura, produtividade, experiência do cliente e transformação dos processos de trabalho.
A programação percorreu justamente temas como retorno dos investimentos em tecnologia, segurança, desenvolvimento de software, comércio eletrônico, varejo, saúde, educação e novas profissões.

Da curiosidade para a execução
Nos últimos anos, boa parte das conversas sobre IA esteve concentrada em possibilidades.
No AI Brasil Experience, vários debates mostraram que empresas começam a entrar em uma segunda fase: descobrir quais aplicações merecem sair do piloto e entrar efetivamente na operação.
É uma transição importante porque o desafio muda.
Criar uma demonstração com inteligência artificial pode ser relativamente simples. Colocar uma solução em produção exige integração com dados, infraestrutura, segurança, governança, regras de negócio, acompanhamento de custos e capacidade de medir o que realmente mudou.
É justamente nessa distância entre tecnologia disponível e aplicação que ainda existe uma das maiores oportunidades do mercado.
Arlindo Galvão, Diretor de Internacionalização e Inovação Aberta do CEIA, chamou atenção para essa questão ao destacar que existe hoje uma grande oferta de modelos, agentes e informações, mas ainda muita fricção para transformar esses recursos em soluções aplicáveis aos negócios.

O Brasil também quer produzir sua própria inteligência artificial
Um dos destaques do evento foi a presença do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás, que contou com uma arena própria.
O CEIA apresentou o Lumi, modelo desenvolvido para língua portuguesa e adaptado ao contexto brasileiro, disponibilizado gratuitamente em código aberto.
A proposta é permitir que empresas utilizem a arquitetura como base para desenvolver soluções próprias, inclusive em infraestrutura local, reduzindo dependências de estruturas muito maiores de cloud.
A discussão toca em um ponto estratégico: o Brasil continuará apenas consumindo modelos desenvolvidos globalmente ou conseguirá também criar tecnologia, conhecimento e propriedade intelectual próprios?
Pedro Chiamulera, fundador do AI Brasil, colocou essa questão na abertura ao defender maior visibilidade para o trabalho desenvolvido por pesquisadores e profissionais brasileiros.
Para ele, o país possui competência para desenvolver tecnologia de ponta e participar das transformações que estão definindo o futuro da inteligência artificial.
Agentes começam a transformar a arquitetura das empresas
Os agentes de IA estiveram entre os temas mais presentes no evento. A mudança é significativa porque agentes representam um passo além da IA utilizada apenas como interface de consulta.
Eles podem pesquisar, analisar informações, utilizar ferramentas, interagir com outros sistemas e executar partes de processos.
Isso também aumenta a complexidade. Quanto mais a IA avança da recomendação para a execução, maior passa a ser a necessidade de pensar em identidade, permissões, acesso aos dados, observabilidade e responsabilidade sobre decisões.
Para Marketing e Customer Experience, essa discussão ganha especial relevância porque agentes podem começar a participar de atividades como segmentação, criação de conteúdo, análise de performance, atendimento, recomendação e orquestração das jornadas.
A pergunta deixa de ser apenas “como usar IA?” e passa a ser: qual parte da decisão estamos preparados para delegar?
Quando IA chega à mobilidade
A diversidade de aplicações também apareceu em setores que tradicionalmente não ocupam o centro das conversas sobre inteligência artificial.
A CPTM, por exemplo, participou do evento apresentando iniciativas voltadas à inovação ferroviária, incluindo projetos de IA, simuladores e novas tecnologias aplicadas à operação.
Em entrevista ao Tudo Sobre CDP, o engenheiro Estêvão Lima Rabelo explicou que a presença da companhia buscava mostrar justamente a capacidade técnica da CPTM e o esforço contínuo para utilizar inovação como forma de melhorar o serviço oferecido à população.
Entre os projetos apresentados estavam aplicações de IA para análise de falhas em manutenção, combinando diferentes modelos e agentes especialistas. Segundo Estêvão, em um dos testes, uma análise que levaria cerca de oito horas passou a ser realizada em aproximadamente dez minutos.
O caso ajuda a colocar em perspectiva uma das mensagens recorrentes do evento: IA começa a gerar mais valor quando está associada a um problema específico e a um resultado mensurável.
A CPTM também vem estudando aplicações futuras envolvendo manutenção preditiva, telemetria, comunicação com passageiros e identificação de situações que exijam atuação operacional diferenciada.

IA também está mudando a lógica da criação de conteúdo
A presença da CapCut no AI Brasil Experience trouxe outro ângulo importante para a discussão: como a inteligência artificial começa a reduzir a distância entre uma ideia e a produção de conteúdo com qualidade profissional.
Em conversa com o Tudo Sobre CDP, Bruno Ladislau, gerente de operações e estratégia de conteúdo da CapCut no Brasil, explicou que a plataforma busca ampliar sua percepção no mercado para além de uma ferramenta de edição de vídeo. A empresa se posiciona cada vez mais como uma plataforma de criação inteligente, reunindo recursos de IA para produção, edição e desenvolvimento de conteúdos por criadores individuais e empresas.
Um dos pontos mais interessantes da conversa foi a chamada “armadilha 80/20” da produção de conteúdo. Segundo Bruno, muitos criadores acabam gastando cerca de 80% do tempo na edição e apenas 20% pensando em estratégia, gravação e desenvolvimento da ideia. A ambição da CapCut é inverter essa lógica, usando IA para reduzir o esforço operacional e devolver mais tempo ao trabalho criativo e estratégico.
É uma discussão que vai além dos creators. Dentro das empresas, Marketing vive um problema semelhante. A pressão por volume e velocidade aumentou muito mais rápido do que a capacidade das equipes de produzir, adaptar e distribuir conteúdo para diferentes canais. Quanto mais a IA absorve tarefas repetitivas de edição e produção, maior pode ser o espaço para estratégia, criatividade e entendimento de audiência.
Bruno também destacou que a CapCut está ampliando sua presença no Brasil por meio de eventos, parcerias e iniciativas voltadas tanto ao mercado de creators quanto a empresas e pequenos negócios. A tese é tornar a criação profissional mais acessível, reduzindo a barreira técnica entre ter uma ideia e conseguir colocá-la no ar.
Outro movimento citado durante a conversa foi a integração da CapCut ao ChatGPT. Bruno afirmou que a empresa havia anunciado uma integração da ferramenta com o ChatGPT, embora os detalhes de disponibilidade, planos e funcionamento ainda dependessem das definições da própria plataforma.
Para Marketing, esse tipo de integração aponta para uma tendência maior: a criação de conteúdo deixa de acontecer em ferramentas isoladas e começa a se aproximar de fluxos nos quais briefing, roteiro, geração, edição e publicação podem ser conectados por interfaces conversacionais.
É mais um exemplo de como a IA começa a mudar menos a existência de uma atividade e mais a distribuição do tempo dentro dela. O profissional não deixa de criar conteúdo, mas pode passar menos tempo executando tarefas operacionais e mais tempo definindo o que merece ser criado, para quem e com qual objetivo.
IA aplicada também significa rever processos
Outro aprendizado recorrente nas discussões foi que tecnologia sozinha não resolve processos mal desenhados.
Automatizar uma tarefa pode aumentar velocidade, mas não necessariamente melhorar o resultado.
Esse talvez seja um dos principais desafios da adoção empresarial de IA.
Em muitas organizações, a primeira reação é adicionar inteligência artificial sobre processos que foram construídos muito antes dessa tecnologia existir.
A oportunidade real pode estar em fazer o movimento inverso: repensar primeiro o processo e só depois decidir onde agentes, automação ou modelos de IA conseguem gerar mais valor.
É uma mudança de mentalidade semelhante ao que aconteceu em outras ondas de transformação digital, mas agora com uma capacidade de automação muito maior.

GEO entrou na agenda da inteligência artificial
Para Marketing, um dos assuntos que merece atenção especial é GEO, Generative Engine Optimization.
Com ChatGPT, Google AI Overviews, AI Mode, Perplexity e outras interfaces participando cada vez mais da descoberta, marcas começam a disputar algo que não existia da mesma forma no SEO tradicional: presença dentro da resposta gerada pela IA.
Isso significa acompanhar não apenas posição e tráfego, mas também citações, contexto, fontes utilizadas pelos modelos e frequência com que uma marca aparece diante de determinados conjuntos de perguntas.
Para empresas, a transformação cria uma nova superfície de visibilidade.
Parte da jornada de descoberta pode acontecer sem que o usuário visite diretamente um site.
A consequência é uma aproximação cada vez maior entre SEO, conteúdo, relações públicas, dados estruturados, reputação e inteligência artificial.
Robôs também ajudaram a materializar a tecnologia
O evento procurou tornar a inteligência artificial visível também em experiências práticas.
Uma das atrações foi a arena de futebol com robôs humanoides, capazes de utilizar visão computacional e tomada de decisão em tempo real.
A demonstração ajudava a mostrar uma característica da atual evolução da IA: inteligência deixa de operar apenas em uma interface digital e passa também a controlar sistemas físicos.
Laboratórios sobre desenvolvimento de aplicativos, criação audiovisual, agentes, integração de ferramentas e segurança completaram essa camada mais prática da programação.
Negócios, empreendedorismo e capacidade de execução
IA também apareceu como ferramenta para acelerar novos negócios.
Rodrigo Righetti, Head do AI Brasil, lembrou que a própria organização do evento nasceu de um grupo de WhatsApp e evoluiu para uma iniciativa que reuniu milhares de pessoas.
Para ele, uma das mudanças provocadas pela IA está justamente na ampliação da capacidade de transformar ideias em projetos e negócios.
Essa combinação entre tecnologia e empreendedorismo apareceu também no AI Shark Race, competição de negócios que premiou a Kalidash com mentorias e uma jornada de desenvolvimento avaliada em R$ 150 mil.
Mais uma vez, a mensagem vai além de usar IA como ferramenta. O debate passa a ser como transformar capacidade tecnológica em produto, receita, produtividade e vantagem competitiva.

O futuro da IA continua sendo também uma discussão sobre pessoas
Uma das escolhas mais interessantes do AI Brasil Experience foi colocar tecnologia ao lado de temas como comportamento, liderança e propósito.
A programação reuniu nomes como Clóvis de Barros Filho, Cris Arcangeli e Roberto Shinyashiki, ampliando a discussão para além da engenharia e das aplicações corporativas.
Clóvis encerrou o primeiro dia levando justamente essa provocação para outro território.
Para ele, aquilo que permanece fundamentalmente humano está relacionado às emoções, aos afetos, aos desejos, às esperanças e também às dores e perdas que fazem parte da experiência humana.
É uma reflexão particularmente relevante num momento em que empresas começam a construir estruturas de trabalho nas quais pessoas e agentes de IA atuam lado a lado.
Se máquinas assumem uma parcela crescente da execução, cresce também a importância de definir aquilo que continua dependendo de pessoas: julgamento, contexto, criatividade, relacionamento, empatia e responsabilidade.
Relembre como a foi a 1ª edição realizada em 2025:
AI Brasil Experience 2025: quando a inteligência artificial encontra negócios, cultura e futuro
Créditos (fotos):
- Mateus Souza
- Michele Barbalho
- Rafaella Cavalcanti
Fotos selecionadas AI Brasil Experience 2026
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